As garrafas PET, no final da década de noventa, desciam aos milhares pelas águas do Rio São Francisco, e podiam facilmente ser vistas desde às margens do rio, na cidade de Ibiaí, no norte de Minas Gerais.
Eu era estudante de Medicina e vivi ali durante o período do Internato Rural, época na qual o estudante, médico em formação, rei de um olho só, ia para uma cidade do interior aplicar os seus parcos conhecimentos.
O Rio São Francisco, onde algumas vezes fui pescar com o meu pai (Saudades pai!), agonizava.
Nunca fui médico só de consultório e, em uma visita a uma fazenda de maracujá, aprendi que os supermercados não compravam as frutas enrugadas e que os fazendeiros simplesmente jogavam fora os maracujás em tais condições.
Pedi que nos dessem as frutas “inúteis” e, feita a doação, os pacientes passaram a tomar suco de maracujá enquanto esperavam atendimento.
Havia dias em que ia atender pacientes no “interior do interior”, em suas casas de pau-a-pique.
Em uma das visitas, levei mudas de maracujá; entreguei as pequenas plantas acondicionadas em saquinhos pretos aos moradores para que as plantassem.
Nas visitas subsequentes percebi que as plantas não cresciam e fomos investigar a causa. Ocorreu que haviam plantado as mudas sem retirarem os saquinhos de plástico, que acabaram impedindo boa absorção de água e nutrientes, afetando o desenvolvimento do vegetal.
Na minha pretensa visão cartesiana de mundo, acabei não explicando ao “morador do interior” como plantar por imaginar que isso fosse desnecessário. À luz de uma generalização que acabou sendo desmedida, achei que, por simplesmente morar em local onde é comum o cultivo de plantas, ele teria conhecimento acerca da “lógica” da raiz e, assim, de como proceder para que o plantio fosse exitoso.
E aquela oportunidade, enriquecida por boas intenções, se perdeu no caminho.
Não raras vezes, nós, que trabalhamos profissionalmente há muito tempo em prol do desenvolvimento de jogadores de futebol nas suas carreiras, chegamos a assumir, via crença indutiva, que eles, por serem “atletas”, sabem o que comer, como treinar e como se cuidar para se recuperar para um treinamento, um jogo ou de uma contusão.
Nossas atuações ao longo de vários anos dedicados a atletas de futebol, com desenvoltura empírica e interdisciplinar, têm nos capacitado a promover personalizados trabalhos de assessoramento e nos habilitado a realizar adequações e investidas em diversos campos do desenvolvimento do profissional em formação, de modo a alimentar seus sonhos, aspirações, potencialidades.
Com mentes abertas, espírito investigativo e sem compromisso com eventual erro ocorrido, podemos mergulhar na vida de cada um desses jovens e identificar que eles, em muitos casos e situações, são como aquelas pessoas simples do interior que não souberam plantar mudas de maracujá.
Aos nossos prezados atletas, todos eles, o nosso, agora mais maduro e consciente, alerta: estamos aqui, em parceria, com e para vocês, construindo caminhos e pontes, sem moldes preconcebidos ou deduções precipitadas!
Enquanto trabalharmos incansavelmente para alcançarmos os nossos mais dignos objetivos, aprenderemos em nossos tempos, descobrindo e aperfeiçoando nossas potencialidades, com a intenção inquieta de juntos, desfrutarmos da felicidade desses caminhos e pontes que nos levarão a colher belíssimos frutos.

Formar o homem e por consequência o atleta são características comuns.
Parabéns pelo exemplar trabalho
Estou encantada com a pedagogia que contém este texto, simples e eloquente.
Peço permissão para utilizá-lo nos atendimentos aos atletas.
Luiz, precisamos mudar a mente dos atletas, formar pessoas conscientes das escolhas e das tarefas que desempenham, afastar expectativas e introduzir realidades que frutifiquem.
Este desejo é de todos nós e este texto abre um caminho de realizações e progresso neste caminhar.
As crenças nos limitam e nos fazem acreditar que já sabemos por pertencer a esta cultura do futebol, por experiências anteriores, por empirismo. A essência é outra e o conhecimento nos fará mais potentes e trará a excelência na tarefa de formar seres humanos com o dom de jogar futebol.
Obrigada e parabéns por palavras tão bem ditas ( escritas).
Querido Luiz, que texto formidável!
Concordo plenamente com você.
Como erramos muitas das vezes subentendendo que o outro já sabe ou deveria saber.
E como que “ensacamos” algumas raizes ou deixamos de desensacá-las por falta de conhecimento ou discernimento.
Receba meus sinceros agradecimentos e cumprimentos pelo precioso conteúdo.
Lindo texto,um exemplo para todos, por falta de conhecimento, mesmo por não perguntar a alguém o que não entendemos ou por medo,acabamos perdendo muita oportunidades de conquistar algo que desejamos, que sirva de exemplo para muitos que lerem e que possa passarem para outras pessoas,para que nunca desista dos seus sonhos, seus objetivos, suas conquistas.
Parabéns pelo texto, analogia perfeita!
É exatamente o que acontece com atletas, e por consequência acabam não performando por detalhes pequenos que valem ouro.
As vezes o simples é extraordinário.